O gerenciamento dos riscos e o princípio da incerteza

Gerenciamento dos riscos em projetos, assim como liderança, é um dos assuntos mais comentados, porém menos praticados no dia-a-dia de muitos profissionais em gerenciamento de projetos no Brasil. Há uma série de motivos elencados por esses profissionais para justificar a não-adoção dessa prática em seus projetos. Em uma pesquisa que realizei ano passado com cerca de 50 profissionais em gerenciamento de projetos no Brasil, os 4 principais motivos apontados por eles para não gerenciar riscos em seus projetos são:

  • Falta de apoio à cultura do Ger. de Riscos por parte da empresa executora;
  • Baixo interesse das principais partes interessadas no ger. dos riscos;
  • Falta de tempo para realizar a gestão de riscos de forma eficaz;
  • Falta de informações básicas para identificação dos riscos.

Algo que ficou claro para mim, não só pelos dados dessa pesquisa, mas também em conversas informais com alguns GPs é que, na verdade, muitos não têm ainda uma noção muito clara do que são os riscos, e eu estou falando da questão mais básica que existe – o conceito de risco – e exatamente por isso resolvi usá-lo como mote para este artigo. Antes de qualquer coisa é preciso realmente entendermos o conceito para que possamos então dar o real valor ao Gerenciamento dos Riscos em projetos.

Existe um exemplo clássico que sempre é abordado, principalmente por professores nos cursos de MBA, da probabilidade de ser jogar uma moeda e dar cara ou coroa, bem como os 50% de chances de acertarmos o resultado escolhido. Se antes de jogar essa moeda você tivesse que fazer uma escolha, qual você faria? Posso garantir que a primeira coisa que vem a sua cabeça é a dúvida. Normal. São de situações como essa que aparecem as incertezas nos projetos. Procurei, por curiosidade, origem da palavra “risco” e descobri que ela vem do italiano risicare, que significa “ousar”. Pela definição poderíamos entender que o risco é uma consequência das nossas ações e não uma obra do acaso. Isso fica claro quando resolvemos não dar a devida importância aos riscos incorridos de determinadas ações, preferindo simplesmente ligar as consequência de um risco ocorrido a uma provável “falta de sorte”.

O PMBOK, por exemplo, define risco de um projeto como “um evento ou condição incerta que, se ocorrer, terá m efeito positivo ou negativo sobre pelo menos um objetivo do projeto”. Não há como falar em gerenciamento dos riscos sem nos remeter a questão da informação. A informação é o maior aliado de um GP no controle adequado dos riscos, já que estamos falando de probabilidades e não de uma certeza. Estima-se que, durante a fase de planejamento dos projetos, os GPs tenham entre 40% e 80% das informações necessárias. No entanto, a informação nos ajuda a tratar melhor os riscos mas não elimina sua probabilidade de acontecer e aí é onde reside a questão da incerteza.

Para que possamos entender a questão da incerteza dentro do gerenciamento dos riscos de um projeto, vamos trazer à tona um princípio muito usando na mecânica quântica e bastante relacionado ao mecanismo do universo: o Princípio da Incerteza de Heisenberg. Esse princípio consiste num enunciado da mecânica quântica, formulado inicialmente em 1927 por Werner Heisenberg, impondo restrições à precisão com que se podem efetuar medidas simultâneas de uma classe de pares de observáveis em nível subatômico. Esse princípio mostrou ser impossível atribuir ao mesmo tempo uma posição e um momentum exatas a uma partícula, renunciando-se assim ao conceito de trajetória, vital em Mecânica Clássica. Porém vamos nos ater mais a lógica da incerteza e deixar um pouco de lado a explicação científica da questão.

principIncerPrincípio da Incerteza de Heisenberg –  (Fonte: http://ohnao.com/particula-particula-onde-andas-tu/)

Em um artigo publicado por mim em Outubro do ano passado, afirmei que todo o projeto tende ao caos. Ele, por si só, já nasce para dar errado, porém o que separa o sucesso do fracasso desse projeto é o quanto você consegue mantê-lo dentro da normalidade, realizando um planejamento o mais assertivo possível e mantendo o controle da situação. O que fica muito claro ao comparar o Gerenciamento dos Riscos em projetos com o Princípio da Incerteza de Heisenberg é que, por pertencerem ao campo probabilístico, qualquer acréscimo de informação aumenta o nível de precisão nas ações, porém não dá a certeza absoluta de que um determinado evento venha realmente a ocorrer. Ao comprar um carro e retirá-lo da concessionária sem um seguro contra eventos de risco – tais como roubo e sinistros – você está assumindo um risco, com sua probabilidade e impacto. Porém é impossível você ter a certeza de que algo possa vir a acontecer nesse meio tempo, simplesmente porque há um princípio de incerteza que acompanha essa ação. Você pode sair da concessionária com o risco transferido para um terceiro (a seguradora), o que não vai impedir que algo aconteça ao seu carro porque o fato de transferir um risco não impede que o evento aconteça, sabendo assim que a transferência do risco age sobre o impacto e não sobre a probabilidade. Com isso entramos naquilo que falei no início do artigo sobre entender o risco como uma consequência de nossas ações e não como uma obra do acaso. Como o próprio Einstein já dizia, o futuro não existe, nós que o criamos.

Dentro desse entendimento, podemos assim traçar uma linha de argumentos realmente convincentes para os envolvidos no projeto e a alta direção, de que não é possível ignorar os riscos envolvidos em um projeto, simplesmente porque o campo probabilístico é imerso no princípio da incerteza,  sendo impossível cravar certeza sobre qualquer evento nesse campo. As partes envolvidas irão aceitar meus argumentos? Não sei, depende de uma série de fatores; seu grau de influência, a cultura empresarial, o quanto a empresa executora ou contratante é avessa a riscos, enfim. O grande erro de muitos GPs, principalmente nos casos de falta de apoio da alta direção e dos stakeholders a respeito do gerenciamento de riscos, é que eles negligenciam o próprio poder de argumentação, sem falar que sua influência dentro desse grupo afeta imensamente o engajamento desses personagens na efetiva coleta e gestão dos riscos.

O que se espera de um profissional em gerenciamento de projeto que se compromete com as melhores práticas é sempre buscar aplicá-las em seus projetos. Se não há suporte atualmente na organização ou entre os stakeholders, use seu poder de argumentação e utilize exemplos reais para embasar esses argumentos. Garanto que simplesmente ignorar os riscos é sempre a pior escolha.

 

 

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