O caso Bel Pesce, o mundo digital e seus falsos profetas

Como as notícias rodam em tempo real no mundo digital, nas últimas semanas um nome esteve presente em diversas discussões a respeito dos limites dos “mini-CVs enfatuados” que tantos e tantos profissionais criam diariamente. O nome em questão é da empresária, palestrante e escritora Bel Pesce. Como é mais conhecida, a Menina do Vale foi alvo de duras críticas em relação a divergências entre suas conquistas profissionais e acadêmicas por ela dita e o que realmente ela obteve. Do que eu soube (e quero deixar claro que só soube, não estou emitindo opinião), ouvi falar na questão da formação superior dela no MIT, nos EUA. Parece que ela divulga que se formou em 5 cursos superiores em 4 anos (???). Também fala que abriu algumas startups nos EUA com grande sucesso e vende essa ideia em seus livros e palestras. Aí teve um camarada lá que comprovou que ela não é formada em 5 cursos e sim em 2, e que ela não abriu as startups mas foi apenas co-founder de uma. Enfim, não vou entrar no mérito.

Pois bem, vou deixando claro aqui que o objetivo desse artigo não é fazer qualquer juízo de valor sobre o caso. Não me sinto na capacidade de poder julgar ninguém, muito menos ela que, honestamente, nunca tinha ouvido falar até uns meses atrás. O que eu quero é usar este exemplo para contextualizar e “puxar” uma discussão semelhante a respeito do assunto. Já escrevi, em outras oportunidades, sobre o mundo mágico da fabricação de gurus nas redes sociais. Talvez por ainda me espantar com o impacto no nosso dia-a-dia com o que circula no mundo digital e como isso tem criado um ambiente extremamente propício para que pessoas transformem ideias em produtos ou simplesmente se transformem no produto propriamente dito.

Outro dia, conversando com um Gerente de Projetos amigo meu, acabamos entrando no assunto sobre o que realmente temos visto de inovador na produção de conhecimento, principalmente em nossa área, nos últimos 2 anos. Não conseguimos elencar nada mais além de um novo canvas baseado no Business Model Generation, mais um modelo de gestão baseado no Design Thinking ou mais um (entre uns 10 que a gente já conhecia) modelo híbrido de gestão de projetos. E a quantidade de Coaches que apareceram no mercado nos últimos 3 anos vendendo seus serviços pelas redes sociais? Todos os dias brotam uns 100 novos coaches prometendo te ajudar a dar uma guinada na sua vida. Pessoas que viraram coaches do dia pra noite, num passei de mágica. Duas horas tentando elencar algo novo e o que conseguimos foi levantar as 4 tentativas mais disseminadas nas redes sociais de se reinventar a roda em gerenciamento de projetos. Mas não basta reinventar a roda, o show pirotécnico com as divulgações das palestras, cursos e oficinas onde os assuntos serão abordados está cada dia mais elaborado. Banners com aquelas fotos de paletó e gravata, estilo “Christian Gray tupiniquim”, números mostrando que várias empresas já adotaram e estão colhendo os frutos… um baita sucesso.

Elencadas as “inovações”, começamos a dar nome aos bois e avaliar o perfil no LinkedIn de cada um desses “gurus” do gerenciamento de projetos. O que pudemos notar é que o “efeito Bel Pesce” é contagioso demais nas redes sociais. Por exemplo, na minha rede do LinkedIn tem umas 6 pessoas que colocam em seus perfis que são detentores da certificação PMP do PMI. Ao entrar no banco de profissionais certificados do PMI, qual a minha surpresa que nenhum deles é certificados. Teve uma que colocou que fez um curso de pós-graduação em Harvard e outro na Universidade de Michigan, quando na verdade ela fez 2 cursos de extensão EAD pela plataforma Coursera.org.  Teve outro que colocou que é diretor no PMI no capítulo Pernambuco e na verdade ninguém nunca viu ele por lá.

Então esse meu amigo usou uma expressão curiosa – falsos profetas – para definir não só esses dos quais conversamos, mas uma série de pessoas auto-rotuladas de “a nova cara do sucesso“. Para quem já leu ou teve curiosidade de ler a bíblia alguma vez na vida, com certeza se deparou com a expressão “falsos profetas” por várias vezes em muitas de suas passagens, seja em Deuteronômio, Mateus, Romanos, Timóteo, João, Marcos, Pedro, Jeremias, Ezequiel ou Miquéias, sempre há um ponto falando sobre os famosos “falsos profetas”. Talvez nenhuma passagem seja tão impactante e tão adequado ao assunto abordado quanto a vista em Apocalipse.

“Mas a besta foi presa, e com ela o falso profeta que havia realizado os sinais milagrosos em nome dela, com os quais ele havia enganado os que receberam a marca da besta e adoraram a imagem dela. Os dois foram lançados vivos no lago de fogo que arde com enxofre.”

Tá, piada sem graça! Vamos parar com isso porque o apocalipse não é o tema do artigo. O que estou tentando dizer com tudo isso é que o mercado está bastante atento a este tipo de ornamentação curricular. Eu mesmo já tive oportunidade de analisar alguns currículos para vagas em minhas equipes de projeto e pude ver que as pessoas estão inflando seus CVs sem dó nem piedade. Fica aqui o meu conselho: se você está fazendo isso, tenha consciência de que é péssimo pra você. Descobrir se você realmente tem uma certificação é a coisa mais fácil do mundo. Saber se você tem conhecimento técnico ou domina outros idiomas é fácil e trivial. Então por que algumas pessoas continuam “criando e patenteando” coisas que já existem? Por que continuam inventando que são algo que na verdade não são? Isso não vai agregar valor, principalmente nessa época de crise, onde o mercado está muito mais seletivo e alguém que já começa mentindo entra perdendo por 5×0.

Pra fechar o assunto, talvez a Bel não tivesse a necessidade de “inflar” (se é que ela realmente fez isso) o seu mini-CV para ser reconhecida e conquistar adeptos. Mas o mundo digital produz “gurus” todos os dias, cada dia um novo gênio e uma série de seguidores nas redes sociais. Até que ponto isso também não é culpa nossa? Essa nossa necessidade de produzir popstars meteóricos. Veja o exemplo do BBB e o que aquelas pessoas são capazes de fazer pela fama. Talvez tenhamos que ser bem mais criteriosos antes de passarmos o bastão de “novo messias” a qualquer pessoa que tenha o dom da palavra e o poder de convencimento.

Fica aqui a minha dica: o seu sucesso não precisa de um exemplo a ser seguido para que seja atingido, precisa de um desejo particular que queira alcança-lo.

 

Wagner Borba, PMP, CSM

 

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