5 Atributos Essenciais dos Gerentes de Projetos: Inteligência Emocional

Na semana passada dei início a uma série de 5 artigos sobre os atributos essenciais dos gerentes de projetos. Falei sobre a Ética e suas implicações no trabalho diário dos profissionais em gerenciamento de projetos. Hoje irei falar sobre outro importante atributo, tão essencial quanto a ética -a Inteligência Emocional. Se antes de começarmos essa série de artigos você acreditava piamente que as habilidades humanas não são tão importantes assim para um Gerente de Projetos, tenho certeza que mudará de ideia após ler esses artigos e refletir sobre todos.

Pouca gente sabe, mas a análise das questões emocionais já estava presente desde a Grécia Antiga. Os estóicos, por exemplo, acreditavam que a lógica era superior aos sentimentos porque as pessoas poderiam concordar com os argumentos racionais, mas sempre discordavam dos sentimentos. O que fazia sentido dentro do contexto da época. Apesar da forte influência dos estóicos, a ideia de que a racionalidade era superior aos sentimentos não foi aceita por todos. No século XIX, o inglês Charles Darwin, em sua principal obra (A Origem das Espécies), referiu-se a importância da expressão emocional para sobrevivência e adaptação. Porém acredita-se que apenas no século XX o termo “Inteligência Emocional” tenha sido adotado. Desde então tantos outros estudiosos se prontificaram a avaliar as questões comportamentais, como por exemplo, o psicometrista Robert L. Thorndike, que usou o termo “inteligência social” para descrever a capacidade de compreender e motivar os outros.

Gerenciar projetos implica inevitavelmente em interagir com pessoas. Quando lidamos com pessoas estamos automaticamente lidando com as relações humanas em sua essência. Esta talvez seja uma das maiores dificuldades dos profissionais em gerenciamento de projetos – entender que o conhecimento técnico é importante e que saber lidar com essas relações humanas é tão importante quanto. Não é fácil, principalmente para nós, latinos, entendermos os limites da emoção sendo tão “à flor da pele” como somos. No entanto, a relação entre razão e emoção precisa estar muito maturada, principalmente em cargos de gestão. Os métodos baseados no conceito Agile, por exemplo, costumam apresentar uma relação mais próxima entre o líder do projeto e sua equipe, muito por conta da questão de empoderamento, também preconizada na ideia do Management 3.0, uma nova forma de pensar a gestão que vem sendo difundida desde 2010.

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Se você já reparou em alguns anúncios de vagas de emprego, existe um requisito que deixa claro a necessidade de ter Inteligência Emocional para determinada vaga: saber trabalhar sob pressão. E isso tem uma lógica. Quando somos colocados diante de uma situação onde demasiadamente somos pressionados, uma série de sentimentos mexem com nosso corpo e mente. Podemos suar frio, gaguejarmos, termos um bloqueio na nossa capacidade de decisão e, dependendo do tipo de pressão que é colocada, pode aflorar o pior dos sentimentos: a raiva. Você pode estar pensando: “esse cara quer que eu não tenha raiva de algo que eu acabei de ouvir ou ler”? Não, eu não estou falando isso. Obviamente se você ouvir algo que não goste, por não achar justo por exemplo, você tem todo o direito de ter raiva, claro! Porém é importante saber como trabalhar essa raiva.

Eu sempre gosto de contar uma história que aconteceu comigo para contextualizar. No início da minha carreira em projetos, trabalhei em um empreendimento de telecomunicações para uma grande operadora. Antes de entrar, esse projeto já era o mais problemático dentro do portfólio da empresa onde eu trabalhava. O GP do projeto tinha acabado de ser demitido e eu, que era o segundo na linha sucessória, tive que assumir a “bucha”. A partir daí eu vinha sendo cobrado diariamente por uma série de pendências deixadas pelo antigo GP. Até que um belo dia eu recebo um e-mail do diretor da empresa que nos contratou com uma frase sucinta: “Quero um prazo AGORA!!!!!!”. Até aí, nada demais né? Qual cliente não quer prazos? Todos querem! O problema é que essa frase foi escrita com fonte Arial 26, em negrito e na cor azul (se quiser, abra o Outlook e simule a fonte). Ah, tem mais um detalhe: a diretoria da empresa a qual trabalhava estava toda copiada neste e-mail. Qual o fator agravante? Eu já tinha mandado o cronograma com todos os prazos no dia anterior para o cliente e, provavelmente, ele não leu. Nesse momento o corpo tremia e o sangue foi para a cabeça. Mas aí eu lembrei de um senhor que morava no meu prédio que dizia “Pense bem antes de sacar uma arma. Se é pra sacar, atire”. Isso serviu pra que eu pensasse calmamente no que iria fazer, já que eu teria inevitavelmente que responder ao e-mail. Nesse momento respirei fundo e fiz a mim mesmo 4 questionamentos:

  1. Qual grau de influência e interesse no projeto da pessoa a qual terei que responder o e-mail?
  2. Qual o grau de influência e interesse das pessoas que estão copiadas neste e-mail?
  3. Qual o impacto em responder este e-mail à altura?
  4. Qual o impacto de não responder a este e-mail?

Este exemplo deixa claro o exato momento em que a razão dominou a minha emoção, me fazendo refletir sobre o que poderia acontecer se eu levasse a cabo a ideia de responder à altura.

Note que o entendimento sobre Inteligência Emocional vai muito além de um simples conceito filosófico. Eu costumo dizer que a denominação mais correta é gerenciamento dos sentimentos. E não apenas os nossos sentimentos mas também os sentimentos dos outros, já que estamos falando de relações humanas. Uma palavra muito usada em estudos sobre inteligência emocional é Empatia, que é a capacidade de se colocar no lugar do outro, tentando compreender seus sentimentos e emoções. Mais para frente, quando falarmos sobre Habilidades de Negociação, voltarei a falar sobre as questões de inteligência emocional, visto que esta é importante para o processo de negociação.

O exemplo citado acima é só uma das situações onde foi necessário a utilização da inteligência emocional, porém não é a única. Resolução de conflitos também dependem da inteligência emocional do GP. É complicado, em um primeiro momento, saber separar a ação que você realmente queria ter da ação que você precisa ter. Algo falado em um tom de voz diferente, uma frase colocada de forma inadequada em um e-mail ou até mesmo em mensagem via SMS / Whatsapp podem trazer problemas de relacionamento entre os envolvidos no projeto e iniciar uma reação em cadeia, que vai desde dificuldades na aceitação das entregas por parte do cliente até o afastamento do GP do projeto.

Então como desenvolver a inteligência emocional?

Eu poderia dizer exatamente o que eu ouvi quando fiz essa pergunta no início da carreira “se desenvolve com a prática”, o que não deixa de ser verdade, mas você pode otimizar o aprendizado com algumas ações:

  • Procurar buscar um feedback das pessoas mais próximas sobre como eles enxergam a sua relação a gestão dos seus sentimentos;
  • Ler a respeito. Tem vários artigos na internet que abordam o assunto. Também aconselho fortemente a ler sobre filosofia e comportamento humano;
  • Desenvolver empatia, buscando entender o que os outros pensam a respeito das situações que acontecem no dia-a-dia para poder agir de forma mais racional.

Claro que existem muitas outras ações, mas o importante é que você entenda a necessidade de saber trabalhar com suas emoções e como o mau gerenciamento delas pode provocar problemas irreversíveis.

Wagner Borba, PMP, MBA, CSM
http://escopodefinido.com

Licença Creative Commons
5 Atributos Essenciais dos Gerentes de Projetos: Inteligência Emocional de Wagner Augusto de A. Borba está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em https://escopodefinido.com/2016/11/03/5-atributos-essenciais-dos-gerentes-de-projetos-inteligencia-emocional/.

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