Tite: Uma aula sobre gestão e perseverança

“Boa noite, trago-lhes boas novas: o mundo não precisa mais de gestores”.

Esta foi a primeira frase de um palestrante mexicano em um webinar, apresentado no fim do ano passado sobre o futuro do gerenciamento de projetos na era digital. Durante a palestra ele buscou contextualizar sua afirmação dizendo que uma nova geração de profissionais dominará o mercado e essa geração “não precisa de pessoas que lhes digam o que fazer”, como se gerenciar pessoas fosse realmente isso. m Pois bem! Apesar do mundo estar cheio de bons (e também maus) exemplos de gestores; seja na política, no esporte ou em grandes corporações, alguns são realmente dignos de admiração. Um dos que eu mais admiro não tem a mesma formação que eu e nem é da minha área de atuação, pelo contrário, é de uma área completamente diferente. Creio que nos últimos oito meses eu deva ter lido, sei lá, umas dez a quinze reportagens a respeito do “efeito Tite” na seleção brasileira de futebol. Como eu acredito que a excelência é empírica, então comecei a pesquisar um pouco sobre a trajetória do Tite até chegar à seleção brasileira; e o que eu li foi realmente inspirador. Peço a você, que teve curiosidade em ler este artigo, que preste bastante atenção a tudo que aconteceu a este profissional e compare à sua própria trajetória. Veja o poder de transformação que uma boa gestão é capaz de ter. Aos que hoje estão em busca de recolocação no mercado, achando que as coisas não vão mudar, se sentindo apequenado, incapaz de uma grande virada na vida… este artigo também vai fazer você mudar de ideia a respeito de tudo isso! Eu tenho certeza.

Como faço parte dos 9 em cada 10 brasileiros que são apaixonados por futebol e pelo sentimento que talvez só ele seja capaz de produzir nas pessoas, acompanhei um pouco a evolução do Tite como técnico, até chegar à seleção. Como qualquer outro profissional que sonha em trabalhar para uma grande multinacional ou até mesmo abrir o seu próprio negócio, o Tite começou em um clube do interior do Rio Grande do Sul (o Caxias). No ano de 2000 foi Campeão Gaúcho derrotando o Grêmio de Ronaldinho Gaúcho na final. Visualizando o seu potencial, o Grêmio o contratou no ano seguinte para assumir seu scratch e foi Campeão Gaúcho novamente. Não satisfeito, no mesmo ano, levou a equipe à conquista da Copa do Brasil, vencendo o Corinthians na final.

Após deixar o Grêmio, Tite montou a base do time do São Caetano/SP que sagrou-se Campeão Paulista em 2004, porém com o Muricy Ramalho como treinador. Neste mesmo ano ele aceitou o desafio de treinar um dos maiores clubes do país, o Corinthians. Foi contratado para tentar um milagre e tirar o time do atoleiro em que se encontrava – na zona do rebaixamento. Ele não só conseguiu reverter a situação, como deixou o time na quinta posição do campeonato. Era um técnico realmente diferenciado, pensava fora da caixa e tinha apreço pela melhoria contínua (o que faz um gestor ser realmente diferente).

Mas como tudo na vida, também conheceu as derrotas. Todos nós passamos por altos e baixos e com ele também não foi diferente. Em 2005, já no Atlético/MG, não conseguiu obter os ótimos resultados de antes. Foi demitido e o clube rebaixado à segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Ainda na “descida da gangorra”, passou por outros clubes sem conseguir o mesmo sucesso. Palmeiras, Al Ain (Emirados Árabes), Internacional (onde ainda conseguiu o título da Sul-Americana de 2008), Al Wahda (Emirados Árabes). Um intervalo de 5 anos sem conseguir grandes resultados, porém extremamente importante como ponto de inflexão de uma guinada fantástica.

Em 2011, mesmo sendo bastante contestado pela torcida que por muitas vezes pediu sua saída do cargo, Tite conseguiu implementar um estilo de jogo onde cada atleta sabia exatamente o que tinha que fazer e quais eram suas responsabilidades para que a equipe produzisse os resultados. Às vezes, como em tudo na vida, um hora não dá certo, outra hora dá, depois volta a dar errado, mas tudo é restabelecido e volta a dar certo novamente. E foi assim, errando e acertando, que ele transformou um time que oscilava demasiadamente em um time Campeão Brasileiro de 2011. O Tite conseguiu realmente automatizar o time, que já sabia exatamente onde poderia se sobressair diante dos adversários. Tanto que em 2012 conquistou o inédito título de Campeão da Libertadores da América sobre a fortíssima equipe do Boca Jrs da Argentina. Agora sim, o Tite havia mostrado à torcida que, na tentativa e erro, formam-se os vencedores. E assim, em 2012, partiu para disputa do Mundial de Clubes contra a poderosa equipe do Chelsea da Inglaterra, onde sagrou-se Campeão. Tite já tinha todos os títulos que qualquer técnico brasileiro almeja ter – campeão estadual, campeão brasileiro, campeão continental e mundial de clubes – mas ele não se contentou com isso.

Apesar de 2013 não ter sido um bom ano, Tite já pensava no pós-Copa de 2014. A seleção brasileira sempre foi o seu maior sonho e ele então resolveu se preparar para chegar ao seu grande objetivo. Em 2014 teve o seu ano sabático, onde se prontificou a estudar, fazer cursos no exterior e se auto-avaliar (algo que todo profissional em gestão deveria sempre fazer). Após o fisco na Copa-2014, seu nome era preterido entre a maioria dos brasileiros para assumir o cargo de técnico da seleção. Ele até esperou ser convidado, mas o convite foi para o Dunga. De certa forma abatido, porém ciente de suas habilidades e competências, não desistiu. Voltou em 2015 a treinar, pela terceira vez, o Corinthians, onde foi novamente Campeão Brasileiro. Já em 2016, com a eliminação da seleção na Copa América 2015, na Copa Centenário 2016 e maus resultados nas eliminatórias para a Copa da Russia, o Tite foi, enfim, convidado para ser o técnico da Seleção Brasileira de Futebol. Agora sim, ele estava onde queria estar. No lugar onde ele sempre soube que chegaria, não por arrogância, mas porque se preparou para isso.

Ao chegar na seleção, reuniu praticamente o mesmo plantel que vinha apresentando um futebol de baixo rendimento. E como num passe de mágica, tira a seleção da 6ª colocação para a liderança absoluta… oito jogos, oito vitórias.

Você pode perguntar: “mas se o time era praticamente o mesmo, o que ele fez que o Dunga não conseguiu fazer?”

E é exatamente aí que aparece o Gestor Tite, alguém que acreditou no potencial de cada um dos seus comandados, alguém que fez um conjunto de grandes estrelas – milionários, super bem sucedidos – se enxergarem como time. Cada um com suas habilidades próprias unindo forças, concentrados em um só objetivo – a classificação para a Copa do Mundo, alcançada na semana passada. Tite não é apenas alguém que olha nos olhos dos atletas para que eles entendam como devem agir e conquistar os objetivos, ele é um profissional que estuda as potencialidades individuais, alguém que se preocupa em buscar dados de desempenho dos seus atletas em seus clubes, um cara que sabe exatamente como tirar o melhor de cada um para o crescimento coletivo. A prova cabal de que o mundo precisa sim de gestores, mas não de qualquer um que, por um acaso, simplesmente acredite ser bom.

Este é o Tite… Um profissional que tinha um sonho, que aprendeu com os seus erros e que transformou as adversidades em impulso. Um líder! Um gestor! Um exemplo!

 

Wagner Borba, PMP, MBA, ITIL, CSM
http://escopodefinido.com

Um comentário em “Tite: Uma aula sobre gestão e perseverança

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