Nem tudo que “Agiliza” é Scrum

Eu confesso que perdi bastante tempo tentando obter respostas à questões conflitantes do universo da gestão de projetos nos últimos 10 anos, pelo menos dentro da minha cabeça havia peças que nunca se encaixavam. Na ânsia de construir uma opinião caí muitas vezes no erro de me posicionar nos extremos, talvez porque sempre é o lugar mais tranquilo quando nos deparamos com alguma mudança de paradigma. Eu não sei como funciona hoje em dia, mas na época em que eu fiz o vestibular (palavra estranha… procure no Google), tínhamos que ler alguns livros chamados Paradidáticos, que seriam a base para uma prova pedante que nenhum estudante da área de exatas era muito chegado – Literatura Brasileira. Eu lia todos os livros e achava que estava um passo à frente dos outros, que só liam os resumos. Vou confessar que a coisa que eu mais detestava era saber que a minha nota sempre era igual ou inferior a quem não se dava ao trabalho de ler os livros. Foi alimentado por esta “sensação de trapaça” que encarei muitas coisas nas quais eu achava incoerentes na vida entre os meus 15 e 25 anos.

Pois bem, doutrinado nas rotinas que muitos consideram “engessadas” do PMBOK, demorei a entender a questão “ágil“. Estranhava porque alguns amigos me chamavam de “lento”, de “de engessado”, de “Fábrica Ambulante de Documentos” (essa era a melhor kkkk). Com isso passei a ficar incomodado, voltei a me sentir o adolescente estudioso trapaceado pelo “leitor de resumos”. Consumi literatura à respeito e dediquei boas horas da minha vida pra captar a ideia do Agile e como esse “método” poderia me ajudar. A conclusão que cheguei na época era que eu estava diante de uma “modinha passageira cultuada por pessoas insatisfeitas em trabalhar com processos estruturados”. Para se ter uma ideia da minha falta de interesse pelo assunto, apenas em 2011 li o famoso Manifesto Ágil e de cara entendi o que maioria das pessoas entendem quando o leem pela primeira vez: “turma de desenvolvimento chateada com a gestão tradicional”.

Passados alguns anos, visitando a biblioteca de uma faculdade, dei de cara com um livro chamado Scrum: The Art of Doing Twice the Work in Half the Time – do Jeff Sutherland – e pensei “agora os caras têm uma metodologia própria pra seguir“. Não sabia eu que o Scrum teve origem em meados dos anos 90. Li algumas páginas e entendi que aquilo era um procedimento típico para projetos de desenvolvimento de software. Cheguei ao ponto de desafiar por várias vezes alguns colegas militantes do Scrum com a corriqueira provocação “saia do campo do desenvolvimento e tente gerenciar um projeto de uma hidroelétrica ou uma plataforma de petróleo usando o Scrum“.

Até que tive a oportunidade de gerenciar, pela primeira vez, um projeto de desenvolvimento de software. Então resolvi usar algo do Scrum + PMBOK, sem abrir mão do meu Arquiteto de Software, nem do UML (palavra estranha… procure no Google).

– “Ah, mas o Manifesto Ágil diz que não é pra trabalhar com documentação”
– O Manifesto Ágil não diz isso. Diz que prioriza-se o software em funcionamento mais do que a documentação abrangente, porém não exclui documentação.

Aos poucos fui deixando de lado o UML e trabalhando normalmente com Estórias, chegando a conclusão que o Scrum e os projetos de desenvolvimento de software foram feitos um para o outro. Se amam, se querem, se precisam. Eu não fujo a regra e confesso que me apaixonei pelo Scrum também. Fiz cursos, me certifiquei e faço o uso dele sempre que preciso trabalhar com desenvolvimento. Mas não, eu ainda não mudei de ideia a respeito do seu uso em projetos fora desse ambiente.

Mas, ora bolas, não dá pra fugir disso. Cada vez que entro no LinkedIn e em outras redes sociais sou bombardeado pela criação de conteúdo ininterrupto da militância em relação ao Scrum como uma alternativa para qualquer tipo de projeto e aplaudo esse esforço de convencimento. “Cara, você precisa ser ágil e o Scrum é a melhor alternativa”. Só que esses caras estão pecando em uma coisa muito básica que cega qualquer militante, seja o político ou metodológico:

Assim como “nem tudo que brilha é ouro… Nem tudo que “agiliza” é Scrum!

O Agile é uma filosofia… o Scrum é um método. Parodiando a famosa música da Rita Lee e do Arnaldo Jabor: Agile é latifúndio e Scrum é invasão. Você não pode tentar convencer um profissional em gestão de projetos dizendo “use o Scrum!” esperando que ele seja o agente condutor da mudança de pensamento da alta gestão. Certifique que as partes interessadas sejam ágeis e que a cultura organizacional colabore com isso. Agilidade é a palavra que norteia e norteará por um bom tempo toda e qualquer geração de produtos, serviços ou resultados, mas eu não preciso usar o Scrum para ser ágil.

– “Ah, mas você não trabalha com post-its… então você não é ágil!”
– Ué, e eu preciso pedir batata frita pra comer um BigMac?

Ser ágil vai muito, mas muito além de se prender a backlogs, sprints, retrospectivas e daily scrum. Ser ágil é saber trabalhar de forma colaborativa, sendo um facilitador do trabalho de toda uma equipe. É ser orientado ao que o produto pode fazer pelo cliente, focar no geração de valor e entender que mudanças não podem ser marginalizadas e sim analisadas para que assim sejam executadas ou não. Se você consegue trabalhar e pensar assim, que se dane os post-its e os canvas. Você pode trabalhar com massa de modelar, palito de fósforo ou até bola de gude.

Filosofia não é método.
Wagner Borba, PMP, MBA, CSM, ITIL

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: