“Projeto” não é só um nome bonitinho que se dá para qualquer coisa

Se tem uma coisa que sempre é muito complicado explicar para grande parte dos meus amigos e familiares é o que eu faço da vida. Se for em algum churrasco ou boteco a situação passa a ser mais crítica ainda. Quando alguém me pergunta “qual a sua profissão?” e eu digo Gerente de Projetos é possível ver estranheza nos olhos das pessoas durante os 3 segundos posteriores a resposta. As vezes essa estranheza vem acompanhada de outras perguntas, das quais a mais comum é “e o que faz um gerente de projetos?”. Tentar ser menos prolixo e simplesmente dizer “gerencia projetos” é algo que sempre pega muito mal e obviamente eu descarto essa possibilidade, mesmo sabendo que não há nada de errado com essa resposta.

Eu já mudei várias vezes o texto base que utilizo para elucidar essa dúvida tão corrente, mas sempre me pego pensando: será que é isso mesmo? Hoje em dia todo mundo tem um projeto em mente. Tenho um amigo que trabalha em uma indústria têxtil há mais de 20 anos, mas já me falou que tem um projeto para ser surfista e morar em Maracaípe (praia no litoral sul de Pernambuco). Claro, um projeto de vida não deixa de ser um projeto. Por outro lado já me perguntaram se o Projeto TAMAR (que trata da preservação das tartarugas marinhas há mais de 30 anos) pode realmente ser chamado de projeto. Eu sempre respondo da seguinte forma: olha, tem gente que chama saquê de cachaça, canjica de munguzá e fotocópia de Xerox, então não é tão incomum muitas organizações chamarem qualquer coisa de projeto.

Para que você entenda porque é tão difícil explicar exatamente o que faço às pessoas, vamos às definições mais conhecidas nas principais referências bibliográficas existentes no mercado.

  • Etimologia : “lat. projectus – ação de lançar para frente, de se estender.”
  • Dicionário : “Desejo, intenção de fazer ou realizar algo no futuro.”
  • ONU – Organização das Nações Unidas (1984) : “Projeto é um empreendimento planejado que consiste num conjunto de atividades inter-relacionadas e coordenadas, com o fim de alcançar objetivos específicos dentro dos limites de um orçamento e de um período de tempo dados”.
  • America Management Association : “É o processo de reunir e liderar uma equipe de pessoas e outros recursos, para estimar, planejar, acompanhar e controlar um número de tarefas, relacionadas entre sei, que resulta nem produto final específico, que deve ser criado num prazo, dentro de um orçamento e de acordo com as especificações.”
  • Kerzner (2006) : “Um projeto trata de um empreendimento com objetivo bem definido, que consome recursos e opera sob pressão de prazos, custos e qualidade, sendo, em geral, atividades exclusivas em uma empresa.”
  • ISO 21500 (2012) : “Projeto é um conjunto único de processos que consistem em atividades coordenadas e controladas com início e término, empreendido para atingir um objetivo.”
  • PMI (Guia PMBOK) : “Um projeto é um esforço temporário empreendido para criar um produto, serviço ou resultado exclusivo.”

Se você parar para analisar todas as definições, por mais que se utilizem de palavras diferentes, convergem para a mesma ideia. Palavras como temporário, produto, atividades e prazos são bastante comuns. Mas se nos concentrarmos na etimologia da palavra vamos perceber que a intenção de um projeto nos leva a algo que deve ser gerado, algo único, não na ideia de quantidade e sim de resultado. Um projeto existe para que algo seja criado como “produto” e esse “produto” deve atender a uma determinada necessidade. Só que muitas organizações distorceram completamente esse sentido e chamam tudo de projeto.

Certa vez me candidatei a uma vaga de Gerente de Projetos em uma grande empresa (e olha, uma empresa muito conceituada há anos). Na descrição da vaga poucas informações, basicamente exigindo MBA em Gestão de Projetos, experiência em relacionamento com clientes e fornecedores. Qual não foi minha surpresa, no dia da minha primeira entrevista, o recrutador me questionou: “você atua na área comercial há quantos anos?”. Como eu entendi que o que ele realmente estava procurando não era um gerente de projetos e sim um gerente comercial o mesmo me confessou “olha, estamos buscando gerentes de contratos… é que nós chamamos os contratos de projetos aqui na empresa, por isso nos foi solicitada a vaga de Gerente de Projetos”. Resultado? Ele acabou perdendo o próprio tempo dele por não saber divulgar corretamente a vaga. Ou você acha que os profissionais em gerenciamento de projetos que se candidataram a vaga tem a obrigação de saber que eles chamam internamente o clientes de projetos?

Há casos de empresas que contratam profissionais para o cargo de Supervisor de Projetos (quem trabalha com projetos vai estranhar), porém na descrição do cargo o profissional precisaria realizar rotinas operacionais dos clientes onde as soluções contratadas já foram implantadas. Mais uma caso onde a empresa chama o cliente e não a demanda do cliente de projeto, mesmo estando em fase de operação. O próprio guia PMBOK, que é o principal referencial em gerenciamento de projetos no mundo, já faz questão de diferenciar uma coisa da outra: “Os projetos e as operações diferem, principalmente, no fato de que os projetos são temporários e exclusivos, enquanto as operações são contínuas e repetitivas” (PMBOK).

Muitas empresas acham o nome “projeto” bonito e moderno e começam a dizer que tudo que elas fazem é projeto, mesmo sem nenhuma coerência com as definições apontadas acima. Há, obviamente, um notório desconhecimento do que realmente pode ser considerado um projeto, a diferença é que não há nada desobrigue uma organização a entender da sua forma o que ela pode chamar de projeto. É a mesma coisa de médicos se intitularem de Doutores (mesmo sem ter doutorado). Quem é que vai chegar lá na porta do Projeto TAMAR e dizer “vocês não podem usar o nome projeto porque deixaram de ser projeto quando iniciaram a operação do serviço de proteção às tartarugas”?.

Continuo a minha saga por uma definição realmente homogênea e didática do que faz um gerente de projetos para que meus amigos e familiares possam entender o que faço sem pestanejar.

 

Wagner Borba, PMP, MBA, CSM, ITIL

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