Gestão de Projetos: Esqueça o que dizem os “gurus” e faça da forma mais adequada

Não importa a sua formação e a profissão que você escolheu seguir, em todas as áreas existem os influencers (os realmente notáveis e os “enchedores de linguiça”). Obviamente não estou me referindo aos verdadeiros influenciadores e sim aos que sonham em influenciar pessoas ou os que juram que estão influenciando de alguma forma. Com a câmera do smartphone, uma canal no Youtube e acesso à redes sociais, eles disseminam seus conhecimentos e coletam dezenas, centenas e até milhares de seguidores (em sua grande maioria, iniciantes na área), ávidos por mais um vídeo sensacional sobre grandes “novidades remanufaturadas” ou até mesmo “bizarrices bem-intencionadas”. No LinkedIn, por exemplo, todo dia um novo rosto surge como “referência” para profissionais na mesma área de atuação admira-los e curti-los.

Certa vez visitei o perfil de um distinto senhor que colocou na sua descrição que teria sido eleito “uma das 10 personalidades mais influentes do Nordeste em gerenciamento de projetos“… Bem, tenho 8 anos trabalhando na área, sou nordestino e nunca ouvi falar desse cidadão, muito menos de uma eleição de personalidades em gestão de projetos por aqui. Mas no LinkedIn cada um coloca o que quer no seu perfil. A maior prova disso é que no Brasil, segundo dados do PMI Global, há cerca de 17 mil profissionais certificados PMP (Project Management Professional). Se você fizer uma pesquisa rápida no LinkedIn o mesmo vai mostrar que mais de 56 mil profissionais no Brasil dizem possuir a certificação PMP. Portanto tem uns 40 mil perfis turbinados por aí.

Anonymous: “Ué, e não pode não? O que você tem contra influenciadores?”
Wagner: Calma, jovem! Não tenho nada contra ninguém. Estou em missão de paz e ainda não concluí meu raciocínio.

Na campo jurídico, na medicina, na música e também no gerenciamento de projetos, existem discussões acaloradas sobre pontos de vista diferentes em um determinado assunto. Como participo de vários grupos sobre Gestão de Projetos no Whatsapp e em redes sociais, fico observado, cada dia mais embasbacado, a forma como as pessoas se expressam e tentam impor o seu ponto de vista em um ambiente que deveria ser salutar para troca de informações e experiências. Afinal, gerenciamento de projetos não é Olimpíadas.

Semana passada, no Quora.com (uma ferramenta de compartilhamento de informações sobre os mais variados assuntos),  presenciei uma discussão que, se fosse olho no olho, teriam saído no tapa. Aí você deve estar se perguntando: “será que a discussão foi sobre política, futebol ou religião?”, não! A discussão foi sobre qual melhor método para gerenciar projetos. Olha, não tem um grupo de discussão sequer sobre GP que essa pergunta não venha à tona, talvez seja a mais comum. A questão rendeu 77 comentários de pessoas de várias partes do mundo, mas a discussão acalorada tinha que ser entre dois brasileiros né? Pois bem, foi o que aconteceu. Eu até tentei ler os comentários, mas parei no terceiro, que dizia: “não há melhor método do que o PMBOK”, aí eu parei, não pelo PMBOK, mas pelo ‘método’. No meio da conversa um deles disse que desenvolveu uma nova metodologia híbrida baseada no PMBOK + PRINCE2 + SCRUM + DESIGN THINKING. Pensei, sensacional! Vou pedir detalhes sobre esse método fantástico. Nem precisei, ele já respondeu a uma pessoa que, pelo nome, devia ser japonês ou coreano. O método é um conjunto de, segundo suas palavras, “ciclos de 2 ou 4 semanas, com documentações de planejamento e imersão para prototipar entregas”. Confuso e altamente “inovador” né? Complementou o fim da discussão dizendo que era um consultor, professor de uma renomada universidade brasileira e estava montando um treinamento sobre esse “revolucionário método” que já contava com 300 interessados.

Ok… e se eu te disser que não existe o melhor método para gerenciar projetos e sim o mais adequado? Faz sentido pra você? Eu sempre repito essa frase: gerenciamento de projetos não é uma ciência exata. Não existe equação fundamental para condução de todo e qualquer projeto. A verdade é que, o que esses caras realmente fazem é tentar requentar café velho e vender como Coca-Cola. Como boa parte dos interessados são iniciantes com pouca ou nenhuma experiência, ninguém contesta o que é proposto. Pagam uma grana para esses caras e ainda tiram foto do certificado no fim do curso pra postar no LinkedIn dizendo: “adquirindo mais e mais conhecimento”. Amigão, na vida real, quem da o tom da música são os clientes e não o método no qual você se certificou. Projetos de desenvolvimento de software têm uma abordagem mais adequada, projetos de implantação de soluções têm a sua abordagem mais adequada, projetos da construção civil também têm sua abordagem e por aí vai.

As metodologias e as melhores práticas em gestão de projetos existem para que os profissionais da área consigam orientar as entregas dos seus projetos de forma estruturada, seguindo um fluxo ou trabalhando de forma iterativa. A troca de ideias sobre o uso desses métodos é muito bom e enriquecedor, mas quando começam a querer diminuir e desqualificar a opinião de alguém tentando impor o seu pensamento em detrimento aos demais, vira uma chata e improdutiva briga de egos. Gente, isso aqui não é uma gincana. Essas imposições empobrecem profundamente a evolução das práticas em gerenciamento de projetos, porque muita gente não quer contribuir e sim “vender ativos”. O que infelizmente estamos presenciando é uma caça ao santo graal da gestão, objetivando uma auto-promoção instantânea na produção de conhecimento (mesmo que questionável). Automaticamente os “gurus” transformam esse conhecimento em produto e vendem como “bala de prata”. Isso não é uma crítica à produção de conteúdo, claro que não, quanto mais conteúdo melhor. A crítica é à qualidade do conteúdo que vem sendo produzido.

Foi-se o tempo em que existiam bons grupos de discussão sobre o assunto, com profissionais realmente lúcidos nas opiniões que expunham e buscando agregar conhecimento. Acreditar que aprender um “novo método inovador (do século passado)” vai fazer de você um profissional mais preparado para entregar projetos de sucesso é perigoso. A comunidade de gerenciamento de projetos clama por mais conteúdos… porém de qualidade, por favor!


WagnerSignature

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