Gerenciamento de Projetos: o que esperar para os próximos 3 anos?

Assim como em 2016, o ano de 2017 não foi fácil para grande parte da população economicamente ativa do Brasil. Desemprego beirando a casa das 13 milhões de pessoas e um cenário de crise e incertezas que tomou conta de quase todo o ano. Os reflexos foram sentidos em diversas áreas. Apesar de uma leve recuperação, postos de trabalho foram fechados em vários setores da economia e no gerenciamento de projetos não foi diferente. Menos investimentos, menos projetos e consequentemente menos vagas para acomodar os centenas de profissionais que especializaram, adquiriram conhecimento suficiente para seguir a carreira ou simplesmente perderam o emprego esse ano.

Apesar de uma evidente “corrida” por treinamentos, especializações e certificações nos últimos 3 anos, o gerenciamento de projetos encontra-se, de certa forma, desafiado no Brasil, não só pela redução de vagas mas por questões de qualificação. Mas se a cada ano o país forma centenas de especialistas pós-graduados, como o problema pode ser a qualificação? A explicação é simples: o gerenciamento de projetos mudou e os programas de pós-graduação da maioria das universidades brasileiras “pararam na 4ª edição do PMBOK”. Incrementos como Agile ainda continuam distantes das ementas na maioria dos cursos de especialização oferecidos no país.

Pensando no lado do mercado de trabalho, nas conversas informais com colegas de profissão, sempre nos questionamos sobre o futuro com a frase “o que esperar para os próximos anos?”. As opiniões são diversas, porém convergimos em muitas coisas e uma delas é “não esperem por grandes acontecimentos”. Não estou querendo ser negativo nesse ponto, mas a economia dá sinais muito frágeis de recuperação para que possamos bater o pé e dizer “os próximos 3 anos serão excepcionais para a nossa área”. Em 2010 houve um “boom” na procura por Gerentes de Projetos e profissionais com alguma experiência na área. O mercado estava em ebulição e as empresas contratavam profissionais até de outras regiões para atender projetos em cidades onde havia escassez de mão-de-obra qualificada. Hoje o entendimento das próprias organizações sobre os profissionais em GP e como eles podem produzir valor para elas mudou.

Então o que esperar para 2018, 2019 e 2020 em termos de oportunidades e quais assuntos estarão em alta nas discussões sobre Gerenciamento de Projetos? Vamos discutir algumas tendências.

Os GPs Generalistas poderão perder mais espaço no mercado.

Altamente apreciados em meados da década passada os Gerentes de Projetos generalistas (aqueles que não têm especialidade definida em uma área negócio específica, trabalhando em projetos de qualquer natureza) estão perdendo espaço no mercado. Esse tipo de GP geralmente tem um bom nível conhecimento em várias “indústrias” onde o gerenciamento de projetos é aplicado, porém não detêm um conhecimento substancial sobre assuntos específicos. Na área de Tecnologia da Informação as empresas de Desenvolvimento de Software, por exemplo, têm buscado Gerentes de Projetos com conhecimento mais robusto em métodos ágeis e skills em linguagens de programação, como ABAP, Java, C++ e HTML5. Em Telecomunicações a procura é por Engenheiros para ocupar os cargos de Gerente de Projetos. Apesar das boas práticas discorrerem que o GP precisa ter profundo conhecimento especificamente em gestão de projetos e não necessariamente em questões técnicas do negócio em si, as empresas têm buscado profissionais com essas habilidades. Em conversa informal com um líder de PMO de uma grande empresa de tecnologia, o mesmo afirmou que essa é uma tendência irreversível. Segundo ele, esse conhecimento mais técnico melhora a comunicação com as equipes de projetos, já que a “nova força de trabalho”, formada em grande parte por jovens entre 18 e 25 anos, não quer gestores e sim deseja seguir alguém que os liderem pelo exemplo e ter esse conhecimento é importante. Segundo esse amigo, para não perder a piada, “é bom procurar estar bem informado também sobre Star Wars e Game of Thrones”.

Métodos Ágeis serão cada vez mais utilizados e apreciados

Talvez essa seja a “pedra mais cantada” nas discussões sobre gerenciamento de projetos. Os métodos ágeis estão ganhando força, não apenas na industria do desenvolvimento de softwares, mas em outras áreas até antes impensadas: design, financeiro, arquitetura, engenharia, educação e até mesmo na construção civil. O advento do Design Thinking também passou a ser bastante utilizado em várias áreas que trabalham com gerenciamento de projetos. A ideia de entregas incrementais, de imersão nos problemas propostos, de divergir para convergir e prototipar as soluções já é hoje amplamente utilizada e a tendência é aumentar ainda mais nos próximos anos. Muitas vagas de emprego, principalmente no campo da tecnologia, já estão sendo divulgadas com o requisito de certificações e experiência em gestão ágil. Em muitas organizações executoras de projetos os métodos ágeis esbarram na cultura organizacional e na falta de apoio dos principais tomadores de decisão. Porém esses métodos vêm rompendo barreiras e hoje já são utilizados também por órgãos públicos que (acreditem) melhoraram a entrega de resultados após a utilização de frameworks e técnicas de gestão ágil de projetos.

O Gerenciamento dos Stakeholders (Partes Interessadas) se tornará cada vez mais importante.

Eu sempre digo o seguinte… gerenciar projetos é debruçar-se em tabuleiro de xadrez onde qualquer movimento, antes de você pensar se deve ser feito, é preciso avaliar se realmente é necessário. Só que nesse jogo, perder um peão pode ser tão fatal quanto derrubar o rei. Resumindo… todo projeto desperta atenção de um grupo de pessoas ou organizações. Cada um tem interesses que podem tanto convergir como divergir, vai depender de como o GP trabalhará para atender a esses interesses sem necessariamente ter que tomar partido por qualquer via. Há tempos o stakeholder deixou de ser o personagem que era apenas comunicado das ações do projeto para tornar-se parte dele, algo ou alguém fundamental para o sucesso dos projetos. Às vezes aquela parte interessada que está menos envolvida e impactada com o resultado do projeto pode trazer uma dor de cabeça tremenda ao GP. Manter um plano de engajamento estruturado e bem definido, buscando constância de feedbacks e planejamento compartilhado pode evitar que os pequenos ruídos acumulem com o tempo e torne-se verdadeiros uivos. O perfil integrador e negociador do Gerente de Projetos é extremamente apreciado pelo mercado e vem sendo muito requisitado, inclusive com testes situacionais de stress durante processo de recrutamento do GP.

Análise de negócio e gestão das informações com Business Intelligence.

Não basta ter uma cervejaria… tem que entender de cerveja. Entender o negócio e quais benefícios podem ser alcançados com o resultado do projeto é algo que até mesmo o próprio PMI (Project Management Institute), detentor do guia PMBOK, vem buscando desenvolver em seus profissionais certificados e filiados. As empresas têm procurado Gerentes de Projetos alinhados com esses habilidades e essa é certamente uma tendência para os próximos anos. O lançamento do Triângulo de Talentos do PMI em 2016 trouxe um enfoque importante na Gestão Estratégica de Negócios.

Você está acostumado a gerenciar projetos utilizando planilhas do Excel e softwares de gestão tipo freeware? Tão importante quanto a gestão do projeto em si é a gestão das informações do projeto. Todo ciclo de vida de um projeto gera uma grande quantidade de informações que precisam ser devidamente tratadas para que possam ser posteriormente compartilhadas com as partes interessadas. O trabalho do Gerente de Projetos ocupa diariamente boa parte do seu tempo e os níveis de interesse e envolvimento das partes interessadas são diferentes, por isso essas informações precisam ser apresentadas de forma dinâmica, clara e objetiva. Muitas empresas estão utilizando ferramentas de BI para compilar as informações dos projetos e gerar relatórios mais confiáveis, com dashboards que atendam as necessidades de informação para ajudar na tomada de decisão.

Em vários grupos de discussão dos quais eu participo, com profissionais de todo o país, este tema mostra-se extremamente relevante. Ferramentas como o Power BI e o QlikView estão servindo como base para estruturar tanto aplicações que servem ao gerenciamento de projetos quanto ao gerenciamento do portfólio de projetos. Eu, por exemplo, criei no ano passado uma aplicação em Qlikview para gerenciamento das Lições Aprendidas nos projetos que gerenciei e posso afirmar que o resultado foi altamente satisfatório.

Gerentes de Projetos com habilidades humanas mais desenvolvidas e com capacidade de prover coaching e mentoring à equipe de projetos.

Não estou usando nenhum embasamento teórico ou estudo aplicado, mas posso garantir que os próximos anos exigirão dos GPs muito mais “traquejo” com os indivíduos que atuam direta ou indiretamente nos projetos. Já escrevi em outros artigos sobre a necessidade de desenvolvimento das habilidades humanas no gerenciamento de projetos, por isso não vou me alongar sobre o que seriam essas habilidades. No fim deste artigo disponibilizo links de alguns desses artigos.

Claro que desenvolver conhecimento em ferramentas de gestão é sempre muito bom e relevante para ampliar ou renovar a capacidade técnica dos Gerentes de Projetos, mas nos próximos 3 anos a capacidade de lidar com pessoas será muito mais cobrado que hoje. A explicação parece bastante lógica: como os métodos ágeis serão cada vez mais incorporados ao dia-a-dia de quem gerencia projetos e esses são colaborativos e adaptativos à mudanças requisitadas, o GP precisa ter uma aguçada inteligência emocional para lidar com uma série de diferentes interesses. Além disso a gestão dos recursos humanos alocados nos projetos demandará alto poder de adaptação às suas expectativas. A capacidade de trabalhar com coaching e mentoring será muito apreciada pelo mercado.

Cursos de Especialização e MBA’s mais flexíveis à tradicional estrutura das áreas de conhecimento do PMBOK.

Se o MBA que você cursou tinha lá seus 12 módulos, dos quais 10 são exatamente as áreas de conhecimento contidas no Guia PMBOK do PMI, isso poderá mudar muito em breve. Muito provavelmente ainda existirão muitos cursos de pós-graduação em Gerenciamento de Projetos que utilizarão a mesma estrutura já conhecida por todos nós. Porém muitas universidades estão mudando os seus programas para se adequarem às mudanças que estamos acompanhando. Nos próximos 3 anos não se espante em ver na ementa de um MBA módulos com referências a Sprints, SCRUM, Design Thinking, PMO Ágil, Imersão e Prototipagem em Projetos.

E você? O que você acredita ser um tendência para os próximos 3 anos no gerenciamento de projetos? Gostaria muito que pudesse compartilhar suas percepções. Eu tenho certeza que muita coisa que pode acontecer até 2020 não foi levantada nesse artigo.

LINKS:

https://escopodefinido.com/2016/10/25/5-atributos-essenciais-dos-gerentes-de-projetos-etica/

https://escopodefinido.com/2016/11/03/5-atributos-essenciais-dos-gerentes-de-projetos-inteligencia-emocional/

https://escopodefinido.com/2016/10/04/em-gestao-de-projetos-quem-nao-se-comunica-se-trumbica/

https://escopodefinido.com/2016/04/26/a-crise-exige-mudancas-inclusive-no-perfil-dos-gerentes-de-projetos/

WagnerSignature

2 comentários em “Gerenciamento de Projetos: o que esperar para os próximos 3 anos?

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