A Inteligência Artificial criará “Gerentes de Projetos Robôs”

Nos últimos anos a comunidade de gerenciamento de projetos, tanto nacional como internacionalmente, tem discutido temas que vão além do “lugar comum” ao qual todos nós já estamos acostumados a frequentar diariamente (escopo, riscos, qualidade, etc). As implicações da inteligência artificial (machine learning) e blockchain para o gerenciamento de projetos têm sido mote corriqueiro em revistas especializadas, congressos e webinars. Apesar de achar ótimo e até mesmo excitante esse tipo de discussão, fico aqui pensando como isso impactaria no nosso trabalho hoje, nessa batalha diária para realizar as entregas que nos foram atribuídas. Será que não estamos pensando em algo tão incerto quanto viajar no tempo e nos encontrarmos no passado?

Certo dia estava conversando com um amigo sobre como, de uma forma geral, não gerenciamos da melhor maneira os riscos em nossos projetos. Cheguei ser chamado de antiquado porque esse não seria o “assunto da moda” e discutir coisas “triviais” como essas chega a ser meio chato.

-Vamos pensar para frente, disse ele.

Confesso que fiquei surpreso com a colocação, até porque não consigo imaginar quem gerencie projetos no futuro que não tenha que se preocupar em mapear e direcionar os riscos. Será que em 2030 não haverá mais riscos no mundo? E aí fiquei pensando cá com meus botões se não estamos pulando etapas dentro desse processo de modernização da gestão de projetos. Se de repente o carro que está a frente dos bois não estaria muito mais turbinado do que realmente está. E então tivemos uma conversa de quase 2h sobre o gerenciamento de projetos do futuro e o que ele me falou realmente me fez rir (e olha que eu tentei não rir, mas foi involuntário). Falamos sobre várias implicações da inteligência artificial na área de gestão, mas o que mais me causou impacto foi o que ele chamou de Gerente de Projetos Robô.

“No futuro, máquinas com acesso a uma gigantesca massa de dados e algorítimos super sofisticados poderão realizar todo o planejamento e controle de um projeto, desde o cronograma até às lições aprendidas.”

Lembrei então que alguém já tinha me falado isso antes e que eu também ri, mas não me recordo agora quem foi. Pois bem, tudo isso é fantástico e para mim, um fervoroso entusiasta das novas tecnologias, foi um impacto prazeroso. Obviamente não duvido que possa existir um software que vai consumir dados, ser exposto à processos decisórios e aprender com eles, isso não é impossível. Mas será que as pessoas que estão se maravilhando com essa grande novidade sabem realmente o que é um gerente de projetos e o que ele efetivamente faz? Será que gerenciar projetos é só planejar, criar tarefas, inserir datas, apontar flags em cada entrega, checar o percentual de conclusão e gerar status? Tipo um Wall-E com um MS Project instalado na memória?

Como o Gerente de Projetos Robô fará a gestão de pessoas, por exemplo? Sim, porque até que me provem o contrário, os projetos são feitos por pessoas. Esse fantástico software fará reuniões? Liderará o time de forma proativa, sendo o exemplo a ser seguido? Como o robô mediará conflitos? Como dialogará e motivará humanos desmotivados e com problemas pessoais? Como renegociará prazos com os clientes, quando necessário? Como irá interagir com fornecedores? Como reagirá a críticas, cobranças e solicitações de mudanças?

Há um lado humano em cada gestor que conta tanto quanto seu talento para gerenciar demandas. E eu acredito piamente que um punhado de dados, um algorítimo fantástico e um superprocessador não conseguirá suprir essa habilidade essencial em liderar pessoas em busca de um objetivo comum. Talvez, em um futuro mais distante, a ideia trazida no filme Matrix possa realmente se materializar. Eu não duvido nada, inclusive sempre digo às pessoas que trabalham comigo que se alguém me provar que 2+2=7 eu vou acreditar na hora… basta provar. Mas hoje, essencialmente com o que sabemos, não há como levar realmente a sério esse tipo de afirmação. Acho que a inovação sempre vem na hora certa, ninguém decola um avião antes de instalar as asas.

Já vi gente muito séria e bem conceituada na área gastando saliva em eventos pelo país tentando vender essa ideia como se fosse o Einstein convencendo as pessoas sobre as ondas gravitacionais (só que ele provou matematicamente sua probabilidade…) e honestamente faltam boas argumentações para que esse discurso seja minimamente levado à sério. Costumo dizer, com todo o respeito, que essas pessoas sofrem de uma síndrome que causa esse tipo de delírio mesmo: a Síndrome da Ausência no Mercado. Quando se afasta do mundo corporativo e se aproxima do mundo acadêmico a tendência é sempre subverter o óbvio, o que é louvável. Porém viver só de pesquisa pode levar a um quadro crônico.

Bem, veremos as cenas dos próximos capítulos. Fiquem à vontade para discordar e dar sua opinião.

Wagner Borba

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